terça-feira, 3 de março de 2009

escadas

Na sepultura dos vendavais
arrancam-se viscerais promessas de maré
Vêm e vão num enjoativo balançar de corpos frescos
- voltam em cima das pedras azuis -
os que não pedem demais quando fica frio
Procuraria no vão das escadas de papel
pelos recantos onde se acumula todo o pó
para depois sugá-lo, numa palhinha de mil metros,
invertendo o sentido das coisas
O pó por dentro, revolto numa desnorteada vela teatral
e a cal das paredes liquidas nos tectos de colmo

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Pesca

Segui, trémula, pelas margens do rascunho das folhas verdes
assumindo-se a rota
traçada de bússolas com letras desencaixadas
na desnecessária tendência de guardar o meio
Sabes que a vida se estende para lá das linhas e dos quadrados
quando os ângulos fechados dos sonhos
se rasgam em mil pedaços brilhantes
É aí que a cola das tábuas e dos cortes ferve
lançando obtusas redes de pesca
nas mais sublimes ideias de estupidez

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Tapete

São como triângulos de gelo
os segredos traídos
nas cortinas da tua janela
No chão,
onde me deito,
funde-se a sombra das vontades que me fogem
enquanto eu,
quieta,
vou fechando os olhos ao ritmo dos teus planos
Se anoitecer assim
e as cortinas forem só lembranças
promete-me
que este segredo não será traído sempre que for recordado
Tremem-me os dentes na ausência de frio
É sempre o calor da nudez que me assusta

São de tantos sabores os teus dias
E eu
dilato
em esferas que me comprimem
Não posso querer ficar

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Inverso

Naquele dia acordei. Acordo todos os dias, é um facto. Acordei naquele também. Nem sequer foi um acordar diferente dos outros mas recordo-o. O quarto que não era meu estava escuro, frio e calado. Tão calado que todos os sons se empurravam contra as paredes e delas saltavam como cascatas de ecos impossíveis de aguentar.

O som das pálpebras, das minhas, que pesadas se abriam e fechavam, era como martelos em chapas metálicas: batidas agudas, lentas, latejantes. Por causa disso quis manter os meus olhos abertos o máximo de tempo que conseguisse. Começaram a arder, primeiro pouco, nos cantos dos olhos onde nascem lágrimas, depois um ardor alastrado, a falta de humidade por toda a superfície ocular. Pensei que iam paralisar os meus olhos, fixados numa parcela de parede que mal distinguia pelo escuro do quarto. Seria um trágico fim para a minha visão, assim gasta num pedaço de parede impossível de reconhecer, com tão pouca luz, tão poucos detalhes, pouco para recordar, para decorar, nos instantes últimos dos meus olhos. Fechei-os. Outra vez os martelos, as chapas. Mais do que som agora. A mais o movimento das pálpebras recolhendo o redondo dos olhos secos e ásperos, resistindo ao movimento aqueles pedaços de pele raspando-me a imagem da parede irregular.

Estranho como o corpo do meu lado parecia não fazer qualquer som e eu sentindo-lhe o movimento pelos lençóis que subiam e desciam ao ritmo do seu sono pesado. Virei-me o mais devagar que pude (ainda assim naquele silêncio cortante os pequenos estalidos das molas do colchão pareciam dezenas de armas a disparar, algumas em simultâneo; balas em trajectória definida, cortando o ar que não se corta). Durante o processo rotativo foi-se aproximando o cheiro daquele novelo de cabelo suspenso entre ombros nús e uma almofada gorda. Foi bom sentir aquele cheiro doce a crescer nas minhas narinas, ocupando o cheiro de corpos repousados que os quartos de dormir sempre têm.

Queria mais luz para ver melhor as ondas irregulares daqueles fios de cabelo: a pequena claridade invasora, infiltrada pelos cantinhos dos buracos dos estores, era pouca. Restou-me pegar em fragmentos e com eles construir o resto da imagem na minha mente.

O silêncio foi-se calando, menos perturbador, ou eu mais fundido nele. Como uma fábrica em início de laboração os meus neurónios iam começando a despertar e os meus dedos dos pés começando a agitar-se. A mudez do mundo começava a revelar-se enquanto adormecia o meu mundo de sonho, entre lençóis e fios metálicos do cabelo dela. As minhas mãos reais procuraram-lhe a perna quente, tocaram-lhe procurando um sítio onde encaixar, pararam abertas sobre o umbigo, onde lhe sentiam o respirar adormecido nos movimentos abdominais.

Gostaria de me lembrar que aconteceu depois mas já só me encontro no barulho do trinco da porta a fechar, do meu suspiro tranquilo, das mãos nos bolsos depois apertados todos os botões do casaco, do vento frio que aquele mentiroso sol de inverno oferecia. Não me consigo lembrar se falamos. Sei que falei, não sei se com ela, não sei se só comigo. Naquele acordar nada acordou de novo em mim mas aqueles cabelos metálicos, que não sei se cheguei a amar, acordam em mim todas as manhãs de sol de inverno.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

H oje

Preciso de ti
Digo-o, escrevo, sublinho
Transborda esta necessidade impossível de reprimir
Entraste-me na mente
percorres-me de dentro para fora
Precisar de ti é uma dádiva,
um altar de sacrifícios que se dão em flor
Infindável a vontade
que te entrego
Eu, que só conhecia fins de tudo
que só esperava fins de tudo
Que agora te espero, a ti
inquieta
em qualquer recanto dos dias
Acordo
e quando te vejo ao meu lado
sei que acordo,
só agora desperto
só agora sei
Tu

quinta-feira, 19 de junho de 2008

castigos talvez

Escolhi hoje para pôr um ponto
a lápis, porque amanhã posso querer apagar
não gosto de ter predefinições em matérias que não conheço
ou que são voláteis como o tempo
No calor do sol que hoje se fez
senti o tecido da roupa colado ao tecido da pele
a mesma orgânica e a falta de vida

Escolhi este dia

É mundana qualquer procura de identidade,
tentativa de afirmação
ou assumida negação
Fico convictamente sem convicção,
discuto sem qualquer tipo de coerência
e evito as questões que não me apetece responder
Prefiro as minhas conversas de botões,
até me entendo bem comigo,
e não me aborrece que me olhem de lado
Os ângulos de visão são sempre relativos

Seria bom se desligasse a minha mente com um comando
coordenando assertivamente só os movimentos irreflectidos
É cansativo ser eu,
ser vários eus
e algumas vezes nem querer nenhum
É por isso que alguns deles ficam sempre inacabados
será por isso que me sinto incompleta?

quarta-feira, 18 de junho de 2008

In conformismo

Lá fora é a vontade deles que impera. Aqui dentro fecho-me, ponho trancas na porta da vida, não quero nada que venha do tudo de nada deles. Prefiro a minha mortal dormência, o estado latente, o estado pendente, o meu estado estático ou estridente. Escolho a minha solidão aparente, enganando-os. São tão fáceis de iludir: um sim é sempre um sim por mais que os meus olhos reflictam, quase em absoluta falta de controlo, a minha vontade de vos esfregar uma bofetada. Ou várias. Porque em assumida convicção quero que se fodam nos vossos pragmatismos e lógicas das coisas. Prefiro a batata no lugar da vossa. Não há moral nenhuma nos passos que dão. Não há dignidade na ausência de escolha, de vontade. Partilho de uma estranha forma de existir que não é só minha, há mais loucos por aí. Não há nada de misterioso na humanidade: a mim fascinam-me os impulsos animais e as necessidades básicas. O absurdo e a decadência humana, a opção pelo ridículo, pelo descontrolo, pelo extremo. É preciso ter a cara no lodo para saber a que sabe por isso não me venham com as histórias inventadas daquilo de que nunca sequer estiverem perto. É na física das coisas que estamos todos, engolidos em destroços que as mentes invadidas por códigos fingem não ver. Há mentiras cuspidas em todas as pedras da calçada, nos saltos dos sapatos que não servem para nada e nelas se afundam. Onde está o pragmatismo da formalidade? Onde estão os brilhantes na luta cega de todos os dias? Não os vejo a lavar as escadas que sobem.