domingo, 4 de novembro de 2012

primeiro



Anda. Traz-me num instante o teu sorriso luminoso,
quero mais que tudo que a tua luz me apague do resto
Tu vens e vais e sempre que vens sempre tudo me apetece
É como se o fim de um dia se acendesse em desejo, em calor e em fome
Vivo dessa fome, como se só a vontade me alimentasse
Anda. Não me importa que depois vás
É o estar aqui, agora, que me fascina
O que não existe não existe, deixa-o estar

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Bílis


Sim, eu sei onde andam os meandros dos meus enganos

Não te iludas, nada disto é um acaso

Os dias que perco, fingindo-me não saber,

são as pedras que guardas no teu saco

É por isso que te cansas de amor

Por isto que me pedes, tão delicadamente quanto o medo que conservas em pó,

que te procure durante a noite e te sugue a alma quando tenho frio

Não sei se te desafio se somente te arrasto

Queria arrancar-te o coração do peito e deixá-lo do meu lado,

ter um caminho suplente

Deixarias, se te pedisse, se supusesses que o quero

Consome-me o teu modo de me olhar

Vou apanhar mais pedras

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Descodificar


Será que perdemos o sinal? Tenho receio que estejamos em comprimentos de onda talvez diferentes, talvez paralelos. O problema do paralelismo é que, entre dois objectos paralelos, em tudo se reflectem semelhanças excepto num único detalhe: no conteúdo. Portanto, se eu e tu gostamos, adoramos, se eu e tu somos loucos e engraçados, não necessariamente gostamos do mesmo ou achamos piada à mesma piada. Ainda assim gosto de te ver rir e acho este fenómeno divertido, coisa que tu, provavelmente, não acharás.
E dito isto talvez vá fazer como te disse há pouco: procurar um descodificador de sinal, ligá-lo às nossas antenas e esperar que elas se sintonizem no mesmo emissor.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

meia dúzia


Um dia saberei o que fazer com o turbilhão. Melhor dizendo, saberei o que escrever sem que ele seja demasiado avassalador, atropelando-me eu pela minha própria vontade de o verbalizar numa tentativa de o tornar imortal. Escrito, em meia dúzia de linhas que, às vezes, de tão indecifráveis, são até impossíveis para mim de entender. É como um chuva tropical, em minutos alaga-me numa brutalidade de milhões de sentidos, milhões de gotas de chuva quente. Depois vão, depois voltam. Balançam-se, embalam-me. Envolvem o mundo numa outra dimensão que eu quero por demais tocar com dedos feitos de pedacinhos. O mais e o menos e eu procurando contrariar a matemática dos átomos, deixando-me ir naquele corredor sem paredes, deixando-me ficar no colo dos tolos. Não estou por aí preocupada na falta de sentido, haverá sempre um norte ou uma outra rosa para inventar.

Dou conta da mudança. Assim, sem nada que não em meia dúzia de linhas. Há por certo do que explorar, internamente, exponencialmente. Haveremos de chegar a um acordo, um consenso de vontades. Deixei de me preocupar.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

anos 00 bem medidos


Quero ter um blog, quero conhecer o dono do bar, quero ter um lado artístico e ser amiga do neto do Manoel de Oliveira. Quero ir a Londres e tirar fotos trendy, trashy, chique. Quero que olhem para mim, quero que falem de mim, quero que saibam o meu nome. Não quero ser uma estrela mas quero ser diferente. Quero que se incomodem com os meus calções curtos e o buraco da minha t-shirt velha. Quero ter as unhas vermelhas e quero que as queiram trincar. Quero ter sempre que fazer, quero ter sempre convites, quero ter de escolher, ter opções, dizer que não muitas vezes por dizer sim muitas mais. Quero que o meu telefone toque constantemente, quero que me sigam no fb, quero ser ouvida, olhada, desejada. Quero fingir que sou indiferente, que não quero nem saber. Quero ter carimbos no meu passaporte, coleccionar sapatos dos sítios por onde passo. Quero o miúdo dos óculos de massa com ar cool geek e os outros todos a querer estar no lugar dele. Quero estar sempre lá, que estejam sempre à minha espera, chegar atrasada mas nunca tarde. Quero ter 30 com ar de 25 até aos 40. Quero.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

O melhor bife da prateleira



Um dia aprendo a escrever. Deixo-me de tentativas e aprendo a sério. A ir directamente aos assuntos, a não fugir das palavras – porque é que temos sempre medo do que mais gostamos? Parece-me estúpido, ilógico, ainda assim praticamente inevitável. Deve ser por isso que somos tantas vezes bons a fazer exactamente aquilo de que não gostamos. Damos-lhe pouca importância, desvalorizamo-lo e tornamo-lo, enfim, banal. Depois sugamos-lhe a complexidade e repetimos a tarefa, como quem lava os dentes ou escolhe um bife da prateleira: mecanizado, nem nos aquece nem nos arrefece.

Vou passar a olhar com maior detalhe para o que banalizo. Talvez numa segunda vista de olhos veja. Descubra. Qualquer coisa. E talvez (me) encontre.