quarta-feira, 2 de julho de 2008

H oje

Preciso de ti
Digo-o, escrevo, sublinho
Transborda esta necessidade impossível de reprimir
Entraste-me na mente
percorres-me de dentro para fora
Precisar de ti é uma dádiva,
um altar de sacrifícios que se dão em flor
Infindável a vontade
que te entrego
Eu, que só conhecia fins de tudo
que só esperava fins de tudo
Que agora te espero, a ti
inquieta
em qualquer recanto dos dias
Acordo
e quando te vejo ao meu lado
sei que acordo,
só agora desperto
só agora sei
Tu

quinta-feira, 19 de junho de 2008

castigos talvez

Escolhi hoje para pôr um ponto
a lápis, porque amanhã posso querer apagar
não gosto de ter predefinições em matérias que não conheço
ou que são voláteis como o tempo
No calor do sol que hoje se fez
senti o tecido da roupa colado ao tecido da pele
a mesma orgânica e a falta de vida

Escolhi este dia

É mundana qualquer procura de identidade,
tentativa de afirmação
ou assumida negação
Fico convictamente sem convicção,
discuto sem qualquer tipo de coerência
e evito as questões que não me apetece responder
Prefiro as minhas conversas de botões,
até me entendo bem comigo,
e não me aborrece que me olhem de lado
Os ângulos de visão são sempre relativos

Seria bom se desligasse a minha mente com um comando
coordenando assertivamente só os movimentos irreflectidos
É cansativo ser eu,
ser vários eus
e algumas vezes nem querer nenhum
É por isso que alguns deles ficam sempre inacabados
será por isso que me sinto incompleta?

quarta-feira, 18 de junho de 2008

In conformismo

Lá fora é a vontade deles que impera. Aqui dentro fecho-me, ponho trancas na porta da vida, não quero nada que venha do tudo de nada deles. Prefiro a minha mortal dormência, o estado latente, o estado pendente, o meu estado estático ou estridente. Escolho a minha solidão aparente, enganando-os. São tão fáceis de iludir: um sim é sempre um sim por mais que os meus olhos reflictam, quase em absoluta falta de controlo, a minha vontade de vos esfregar uma bofetada. Ou várias. Porque em assumida convicção quero que se fodam nos vossos pragmatismos e lógicas das coisas. Prefiro a batata no lugar da vossa. Não há moral nenhuma nos passos que dão. Não há dignidade na ausência de escolha, de vontade. Partilho de uma estranha forma de existir que não é só minha, há mais loucos por aí. Não há nada de misterioso na humanidade: a mim fascinam-me os impulsos animais e as necessidades básicas. O absurdo e a decadência humana, a opção pelo ridículo, pelo descontrolo, pelo extremo. É preciso ter a cara no lodo para saber a que sabe por isso não me venham com as histórias inventadas daquilo de que nunca sequer estiverem perto. É na física das coisas que estamos todos, engolidos em destroços que as mentes invadidas por códigos fingem não ver. Há mentiras cuspidas em todas as pedras da calçada, nos saltos dos sapatos que não servem para nada e nelas se afundam. Onde está o pragmatismo da formalidade? Onde estão os brilhantes na luta cega de todos os dias? Não os vejo a lavar as escadas que sobem.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Caixas

Numa tela branca
construída de dedos
sugam-se linhas dispersas absorvidas de vácuo
Sem ninguém entender
ocupam-se enlaçadas cores
Os dedos salpicam nas mãos que tremem
É o que não se diz que se desenha
está ali
tão nítido na ausência de significados
Porque a verdade é feita de pequenos nadas
na simplicidade da água que escorre em janelas frias
Desconstruída a história ainda por contar,
nos uivos das distâncias
nas cordas dos dias
Tudo muda,
metamorfose nunca acabada
Tudo cessa,
voltando depois do avesso
A simetria pode ser irregular
quando adormecemos ao sabor do vento
e se encaixam desejos

sábado, 14 de junho de 2008

Madrugada

Se eu semear nos teus poros os segredos de mim
Se todos os dias cuidar deles,
todos os dias cuidar de ti,
deixas-me todos os dias ser feita das raízes que te ocupam?
Conquistar-te pela pele,
em pequenas doses
pequenos novelos de ar
As somas, as sobras, as solas
todas
as que ninguém quer
Delas, todas, tudo tiro
Tudo dou
Não vês no beijo sem luz que nos faz brilhar?
Vês
(eu sei)
Sussurro

segunda-feira, 5 de maio de 2008

um e um

É nas dúvidas que se consome meu combustível
Vêm em pés de lã
De mansinho,
na calada de uma madrugada de nevoeiro
Depois alojam-se,
parasitas
Sugam meu ar comburente, moem meu cérebro
Lá, no centro das minhas convicções
Porque um nunca é um
são sempre dois
Esta e aquela
Qual é que escolho?
Se escolho esta porta
a outra fica sempre por abrir
Porque não me deste a chave antes?
Agora é tarde,
eu já entrei nesta porta
Não sei para onde vou mas conheço este caminho
já por aqui andei antes
Antes de tudo ou antes de nada
Se cá voltei foi tudo ou nada?
Já me cansam os pés,
vou parar aqui

Conversas d'olhos

Um café, um bar, uma mesa, quatro cadeiras. Só ocupamos duas. As outras ficam, nem nuas nem tristes, olhando-nos. Querem de nós, querem que façamos o lugar de quatro.

“Gosto de ti porque tens conteúdo.”

Recordo quando o disseste. Recordo os teus olhos quando o disseste. Recordo o trago que deste depois. O teu copo molhado de fora mostrando o frio de dentro. De dentro do copo. Talvez tenhas feito a vontade às cadeiras (talvez, se com vida se pintassem, tivessem esboçado um suspiro palpitante e aguardado o desenrolar).

Não recordo se ficaste vermelho, estava escuro. Recordo a música, recordo o meu embaraço. Sorri, não disse nada, projectei os olhos lá longe, numa qualquer prateleira. Fiquei embaraçada por ti, imaginando o teu embaraço ao dizê-lo. Tento decifrar que te disse a ti este momento. Imagino-te combatendo hostes de barreiras, de distâncias, de contenções, de portas e mais portas e mais chaves. Tudo pelo meu conteúdo.

Imagino, depois de toda esta luta, a sede que a evidencia no copo que levaste à boca, que te tenhas sentido entre a esperança e o desalento. Esperançoso que eu tivesse entendido tua luta, tua conquista, o quanto te custara dizer aquelas palavras todas e juntas. O desalento, sim. Desalento de saberes que seria pouco. Que a tua batalha, tuas espadas, teus monstros são pouco. Que eu provavelmente quereria mais – mas ninguém consegue duas batalhas seguidas.

O curioso de tudo eram os teus olhos. Não pretendo banalizar, já vi muitos olhos inexpressivos. Olhos são só olhos. Mas os teus às vezes queriam saltar, falar por ti. Quase tinham a ousadia que te faltava e depois logo fugiam. Nunca os decifrei bem mas foi por eles que te quis ver mais vezes. A minha esperança era que eles falassem mais que tu e que tu, depois de denunciado por eles, falasses por ti (em modo mais simples que conversa de olhos). Não sei quantas vezes insisti, sei que um dia entendi que entendia só partes, que eram poucas. Despedi-me deles nesse dia. Eles entenderam, despediram-se de mim, ao longe, sem muito alarido: porque eles sabiam mas tu ainda não. Era uma despedida prolongada.

Guarda-me. Um dia quando tu fores os teus olhos relembra-me. Abre esta porta, sobe as escadas, toca. Também tenho um copo para te matar a sede.