Arrumar a casa do pó do mundo dos dias
É arrebatadora a forma de aceitar uma mentira que sempre se viu nascer
Faz vibrar as cordas com que se prendem os fantoches da voz
(Jamais é dito o que se pensa)
Arrumar a casa do pó do mundo dos dias
É arrebatadora a forma de aceitar uma mentira que sempre se viu nascer
Faz vibrar as cordas com que se prendem os fantoches da voz
(Jamais é dito o que se pensa)
Tu e eu brincámos ao amor. Pretensiosos, achámos que o saberíamos usar em doses não letais e em estados de latente embriaguez ignorámos o perigo da bioacumulação. Sugámos-lhe o conteúdo, inventando repetidamente a perfeita justificação para o pulsar do desejo. Havia sempre uma origem que eu e tu ansiávamos todos os dias, nos recantos das ruas caladas dos nossos novelos de convictas promessas. E tu nunca me quiseste.
Agora estamos aqui, desfeitos e cansados. Esgotámos, debutámos, enchemos de nada o ego dos nossos sentidos. Agora não sei para onde ir nem o que fazer com isto. Tu nunca me amaste. Eu sequei-te no amor que não havia. Onde foi que quis fechar os olhos?
Passos. Passas por mim e nem me vês. Falas, perguntas, pedes, repetes. Queres um mundo num instante e nem num instante paras para me ver. Insistes, persistes. Estás tão certo que eu quero quase acreditar e ceder mas tu não me vês. Respiras, retomas, reparas as aparas partidas. Só não reparas em mim. Pára, fica, olha-me.
Não sei que te dizer. Ficou tanto para trás que não sei se sei recuperar. Tu e eu somos um sonho que eu quero cumprir. Só não sei como o fazer. Já sei que repito sempre o mesmo. Já sei que ficas sempre no mesmo estado de incompreensão porque nada te faz sentido. Os teus dedos entrelaçam nas tuas mãos. Agarras o que não podes e supões como seriam os meus dedos nos meandros dos meus desejos que não te revelo. Toneladas de segredos meus. Toneladas de planos teus. Noites em claro. Vontade. Quero. Quero-o mas jamais to direi assim, sem ser sem saberes. Queima-me todo este visceral e continuo sentido de vontade encapsulado em tanto. Liberta-se quando não quero e porque não quero reprime-se. Dá-se, dado sabendo-se a nada. Oco e perdido. Dá-me a tua pista que procuro encontrá-la. A contradição é mais do que tenho mas é tanto quanto seguro. A coragem que quero que tenhas está tão latente nas costas de mim, atrás, por trás, onde quer que seja que não veja com os meus olhos. Na pele em pele, sem ela. Por dentro, dentro dos ossos. Sentes? Deixa-me percorrer tudo com as pontas dos teus dedos. Deixa-os trémulos, adoro. Quero-os suados, sugados, alagados. Trespassando a falsa virtude das minhas pernas erguidas. Ultrapassa-me, pisa-me. Vem depois abraçar-me com a tua clareza e abanar-me com a tua razão. Sou o tão pouco de tudo que te aconchega como um sinal para começar. Arrasta-me, arranca-me os cabelos. Pede-me o que não te sei dar. Pede-me brutalmente, em jeito de fome impossível de conter. A força de ser é tão mais que tudo. Poderia eu tentar combate-la. Jamais o faria. O genuíno de ti é-me demais evidente para ser negado. Afoga-me na ironia de somente existir. Não to posso negar. Afoga-me na clareza do que és e me dás. É demais humano, tão mais que a minha desumana certeza se queira em si. Apago.
Apaixonei-me por ti por uma noite, ontem à noite. Entre os beijos, pelas sombras e nos sussurros interrompidos pelos aviões. Nos risos, nos sorrisos, no frio do metal em dedos quentes, no banal dos perfumes alagados de cheiros de nós. Ontem à noite ainda é hoje e hoje apaixono-me pela memória, no que dela guardei e desenhei ainda mais bonito do que foi.
O amor é um retalho feito de instantes.