Esfrego as mãos na cara. Se pudesse ver-me ao espelho agora
saberia exactamente o que iria ver. Há um rasgo triste na linha das minhas sobrancelhas
de cada vez que me atravessa este meu solitário amor pelo mundo. Os meus olhos
ficam mais pequenos, os meus lábios ficam mais pequenos. É como um buraco negro
no centro do universo que sou eu. Há tanto a acontecer que me confundo e me
perco na vontade de o partilhar. Só não sei bem como o fazer. A quem fazê-lo. Parto
do princípio que é tão meu que será difícil de entender se eu o procurar
multiplicar. Estou errada, bem sei. Porque eu nunca sou só eu, eu sou um mundo
inteiro que está em mim e o mundo inteiro tem-me em parcelas de tudo.
E nesta súbita solidão emerge tão clara a certeza de nunca
estar só. No meu amor pelo mundo as mãos que esfrego na cara são muito mais que
os cinco dedos que me confortam. O hoje e o agora são os sonhos. Nos meus
sonhos sou feita de matéria de tudo e de nada. Nasço todos os dias, todos os dias
são meus. Todos os dias são a minha dádiva. Todos os grãos, todos os milímetros,
todos os pedaços de nada. Tudo agarra o meu rasgo triste e o rasga com o ritmo
do meu respirar em amor. O meu amor deixará de ser triste. O meu amor deixou de
ser triste. O meu amor é teu e tu, tu és o mundo condensado no infinito.
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