segunda-feira, 21 de novembro de 2011

anos 00 bem medidos


Quero ter um blog, quero conhecer o dono do bar, quero ter um lado artístico e ser amiga do neto do Manoel de Oliveira. Quero ir a Londres e tirar fotos trendy, trashy, chique. Quero que olhem para mim, quero que falem de mim, quero que saibam o meu nome. Não quero ser uma estrela mas quero ser diferente. Quero que se incomodem com os meus calções curtos e o buraco da minha t-shirt velha. Quero ter as unhas vermelhas e quero que as queiram trincar. Quero ter sempre que fazer, quero ter sempre convites, quero ter de escolher, ter opções, dizer que não muitas vezes por dizer sim muitas mais. Quero que o meu telefone toque constantemente, quero que me sigam no fb, quero ser ouvida, olhada, desejada. Quero fingir que sou indiferente, que não quero nem saber. Quero ter carimbos no meu passaporte, coleccionar sapatos dos sítios por onde passo. Quero o miúdo dos óculos de massa com ar cool geek e os outros todos a querer estar no lugar dele. Quero estar sempre lá, que estejam sempre à minha espera, chegar atrasada mas nunca tarde. Quero ter 30 com ar de 25 até aos 40. Quero.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

O melhor bife da prateleira



Um dia aprendo a escrever. Deixo-me de tentativas e aprendo a sério. A ir directamente aos assuntos, a não fugir das palavras – porque é que temos sempre medo do que mais gostamos? Parece-me estúpido, ilógico, ainda assim praticamente inevitável. Deve ser por isso que somos tantas vezes bons a fazer exactamente aquilo de que não gostamos. Damos-lhe pouca importância, desvalorizamo-lo e tornamo-lo, enfim, banal. Depois sugamos-lhe a complexidade e repetimos a tarefa, como quem lava os dentes ou escolhe um bife da prateleira: mecanizado, nem nos aquece nem nos arrefece.

Vou passar a olhar com maior detalhe para o que banalizo. Talvez numa segunda vista de olhos veja. Descubra. Qualquer coisa. E talvez (me) encontre.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Detalhes

Arrumar a casa do pó do mundo dos dias

É arrebatadora a forma de aceitar uma mentira que sempre se viu nascer

Faz vibrar as cordas com que se prendem os fantoches da voz

(Jamais é dito o que se pensa)

restos

Tu e eu brincámos ao amor. Pretensiosos, achámos que o saberíamos usar em doses não letais e em estados de latente embriaguez ignorámos o perigo da bioacumulação. Sugámos-lhe o conteúdo, inventando repetidamente a perfeita justificação para o pulsar do desejo. Havia sempre uma origem que eu e tu ansiávamos todos os dias, nos recantos das ruas caladas dos nossos novelos de convictas promessas. E tu nunca me quiseste.

Agora estamos aqui, desfeitos e cansados. Esgotámos, debutámos, enchemos de nada o ego dos nossos sentidos. Agora não sei para onde ir nem o que fazer com isto. Tu nunca me amaste. Eu sequei-te no amor que não havia. Onde foi que quis fechar os olhos?

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

no one

Passos. Passas por mim e nem me vês. Falas, perguntas, pedes, repetes. Queres um mundo num instante e nem num instante paras para me ver. Insistes, persistes. Estás tão certo que eu quero quase acreditar e ceder mas tu não me vês. Respiras, retomas, reparas as aparas partidas. Só não reparas em mim. Pára, fica, olha-me.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Suposição

Não sei que te dizer. Ficou tanto para trás que não sei se sei recuperar. Tu e eu somos um sonho que eu quero cumprir. Só não sei como o fazer. Já sei que repito sempre o mesmo. Já sei que ficas sempre no mesmo estado de incompreensão porque nada te faz sentido. Os teus dedos entrelaçam nas tuas mãos. Agarras o que não podes e supões como seriam os meus dedos nos meandros dos meus desejos que não te revelo. Toneladas de segredos meus. Toneladas de planos teus. Noites em claro. Vontade. Quero. Quero-o mas jamais to direi assim, sem ser sem saberes. Queima-me todo este visceral e continuo sentido de vontade encapsulado em tanto. Liberta-se quando não quero e porque não quero reprime-se. Dá-se, dado sabendo-se a nada. Oco e perdido. Dá-me a tua pista que procuro encontrá-la. A contradição é mais do que tenho mas é tanto quanto seguro. A coragem que quero que tenhas está tão latente nas costas de mim, atrás, por trás, onde quer que seja que não veja com os meus olhos. Na pele em pele, sem ela. Por dentro, dentro dos ossos. Sentes? Deixa-me percorrer tudo com as pontas dos teus dedos. Deixa-os trémulos, adoro. Quero-os suados, sugados, alagados. Trespassando a falsa virtude das minhas pernas erguidas. Ultrapassa-me, pisa-me. Vem depois abraçar-me com a tua clareza e abanar-me com a tua razão. Sou o tão pouco de tudo que te aconchega como um sinal para começar. Arrasta-me, arranca-me os cabelos. Pede-me o que não te sei dar. Pede-me brutalmente, em jeito de fome impossível de conter. A força de ser é tão mais que tudo. Poderia eu tentar combate-la. Jamais o faria. O genuíno de ti é-me demais evidente para ser negado. Afoga-me na ironia de somente existir. Não to posso negar. Afoga-me na clareza do que és e me dás. É demais humano, tão mais que a minha desumana certeza se queira em si. Apago.