quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Espera

Limpa-me a cara triste de manhã
Diz-me que passou
Diz-me que existem sonhos ainda,
que não morreu tudo de mim

Repetem-se os erros na minha mente,
reflectidas memórias

Preciso acelerar o tempo
Com ou sem razões só quero os dias marcados,
deixar de os contar

Dá-me as tuas mãos
segura-me enquanto espero o tempo
Fica ao meu lado
sussurra-me segredos enquanto se diluem memórias

Longe

Caminho estreito
Em linhas me levando ao nascer do sol
Árvore escura dando-me boas vindas
Pinga água da madrugada,
folhas nuas e limpas

Longe o horizonte
Pequenas ervas em solo sossegado
apontam-me o sítio onde vai nascer o sol
Deixo-me ali ficar
Só eu
De costas oferecidas àquele tronco
onde velho barco se encosta também
Tinta lascada
Letras sumidas
Dois remos
Duas margens
Aquele caminho feito ponte
Secreta passagem em água doce escondida
Meu destino entre barco e ponte
superfícies e névoa
vapor de água
noite fria

Estou só ali
já não sei mais lá voltar
Transporta-me a minha mente àquele chão
Ainda lembro o sol nascente
Sem respirar me deixa
Oferta de mel
tudo manchado de luz
nos cantos
nos buracos
nas pedras
entre as folhas da árvore do barco
espelhado nas margens, no leito
denunciando o translúcido caminho
sobre água deitado

Em tudo o reflexo, a absorção
a troca
Meus olhos vendo
meus olhos dando
Fico nesta margem
De sol me completando
Talvez um dia minhas pernas doridas
queiram descobrir o sol do lado de lá
Entretanto fico
aqui

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Gelo

A menina fugiu
Ingenuidade descascada,
em gomos repartida a verdade do mundo
Não há mãe
Não há pai
Não há casa nem tecto
só estás cá tu

As únicas ferramentas são a tua cabeça
e as tuas mãos
Que vais construir?
Em pregos cravados,
projecto de menina,
já quer sapatos altos
Sem saber nada
sabe que tem de saber
Não tudo
(sabes que não foste feita para tanto)
só o necessário para não olhar mais para trás
Em véus enganados os dias antigos
Em rectas a estrada que vem

Dou conta do que fizeste contigo
Estava escrito assim,
bem sei
Em fórmulas, quadrados,
tua razão dominando tua fragilidade,
tua vontade de fugir
teu desejo esquecer
Preço alto, concedido desejo
Choras baixinho
na ausência de lembranças,
dor que se repete
Tu sabes porque te esqueces

Regras demais também erram
Gelo nos olhos
Distância de ti que ninguém percorre
Intimidadores olhos
mesmo que não se vejam
Distância forçada em segredos para esconder

A menina fugiu
Há quanto tempo?
Não me lembro dela só de ti
Tua casca arrancada cedo demais
Falta de sol,
os gomos amargos
e tu querias doce
Não te canses
Culpa tua
Culpa deles
Sem culpa
Tens folhas brancas ainda
Tens tempo
Segue
Voltar atrás não adianta

Enquanto

Em quantas frases perdidas,
quantos metros,
quantos carris,
quanto pó?

Em quantos segredos,
quantas latas,
quantas folhas,
quanto ruído?

Em quantas casas vazias,
quantas paredes abertas,
quantos portões velhos?

Em quanto estás tu?

Enquanto pergunto recordo
(estás em mim)
Em quantos eus eu tiver,
enquanto sonhar sonhos contigo

A vida afinal é isto
Cheiro a doce
Olhos tímidos
(nossos)
Janelas com flores nos parapeitos
Sol que se põe ou nasce, fermento de luz
Pedidos
Promessas
Azul profundo

Profundamente me afogo em promessas que te dou
Vejo cores
É bom sorrir-te

sábado, 9 de fevereiro de 2008

confissão

Masturbação de sentimentos
Minha estimulação auto-infligida
na busca de solitário prazer mental
Invasão de mãos no corpo
envio de códigos à mente
Respiro mais fundo quanto mais penso
Deixo o amarelo dos desejos criados
espalhar-se nos meus olhos
Neles me sacio,
no murmúrio dos meus pecadores pensamentos
Amanhã procurarão a redenção,
o perdão obtido em confissão fechada
Pecadores pensamentos,
escondem-se em conversas banais
(tão aborrecidas)
Voltam à noite a casa,
bordel da minha alma,
para se perderem na luxúria de desejos proibidos
Comerem em gula,
com as mãos, dedos sujos,
todas as maçãs vermelhas que puderem
Vadios
sem hora nem data

Gatos em telhados espreitando janelas entreabertas
bigodes lambidos em preguiça
Gatos sem dono,
sem destino
Independência exibida em olhares de pupilas inchadas

Sobre o escuro da noite
a ausência de cores foca-me a atenção
Perfis, contornos
Oiço mais, cheiro mais
A preto e branco balanço passos,
ensaio a orquestra do meu respirar
Aguardo que chegues,
quero dar-te a beber dos meus pensamentos
em silencio arrependido
Em falso arrependimento
porque amanhã bebemos mais

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

em ti

Volta
Não quero que vás sem chegares a chegar
Vem
Prometo que tento
que espero
que vivo
Vem ter comigo
diz-me que estou errada
mostra-me que acasos são causas
que causas em mim um turbilhão
Volta, vem
Deixa-me olhar-te
não vás no mesmo vento que te trouxe
As tuas mãos, como são?
Quero ver o teu perfil desenhado a carvão,
com lápis de cor
Mostra-me os meus enganos,
diz-me que devo seguir-te,
estar contigo,
estar em ti
Vem