segunda-feira, 31 de março de 2008

Diálogo

Disseste-me que o mundo era azedo,
que teria muitos estilhaços ainda para sentir ,
que o inferno é concreto
Em boa vontade dizias,
só pretendias alertar-me,
não desanimar-me.
Pois com a minha boa vontade
te escrevo, te desmoralizo, te desanimo
em simples murmúrio te aviso:
a vida é bela

Números

Em números perderam-se minutos
que os números não souberam contar
Inúmeram e classificam com graus de detalhe
estratificando o que só em bruto tem valor
Perdem em divisões
o que somado depois já não se une
ábaco de bolso que ninguém entende
Em números se fundem
Números falam, traduzem, simplificam
números são datas
são dias
são kilometros que separam
são dedos que se encontram
são notas musicais
são notas de rodapé
Em contas, conta-se um conto
que ela, só ela, ouve
encantada

domingo, 30 de março de 2008

Demolição

Demolição
Explosão
Energia demais apenas perdida
Fluxos que não entendo
Coisas vão
coisas vêm
E enquanto dizia que nada fica
sinto agora tudo isto ficando,
agarrado a mim em falso abraço,
sem conforto
Peso enorme carregado
Sombra minha
escura, pesada,
um pesadelo que me acorda na madrugada
Suor de medo
alagadas as horas de silêncio
roubado o tempo que precisava
para mim
Todo perdido nisto,
neste engano de pecados insanos
nos ecos, sempre os mesmos
Na minha tranquila estadia
está o mundo em guerra comigo
Quem parte?
Partida em cacos parto eu…
partiria se soubesse como sair daqui
se soubesse o norte ou o sul
Não há bússola para mim
Jamais serei bússola de alguém

Em perdidos temas
passo da cadeira para a cama
aguardam-me os pesadelos de madrugada
Talvez um dia deixe de dormir
Deitando-me sem sono
Deitando-me fora
Renovadas vozes
Esquecidas sombras fechadas em baús
Cinzas
Pó do que foi

Nada me toca agora
Nada consigo que me toque
Meu corpo repelindo qualquer toque
Minha alma
(se ainda a conheço)
um campo de batalha
Sem espaço para nada
Em cercos todas as miras
apontando na mesma direcção
Tiros certeiros
Mato tudo
Não acredito
Prefiro ser só, estar só
Não tenho espaço para dúvidas
já só não acredito
Este o presente que me deste

sábado, 29 de março de 2008

Lugar

Sento-me à mesa
assumo o assunto
vamos debater as coincidências
Vidas que se cruzam
aparentemente desconexas
evidentemente empurradas contra si
Tinha de ser este dia e esta hora
esta conversa
este copo
este lugar
aquela prateleira
aquele chão
São só detalhes inconscientes
que à minha consciência transmitem sinais
Não sei que virá daqui
tão pouco me importa
Não tenho fita métrica
sequer sistemas de medição,
para medir a leveza destas coincidências
que não o são
para quantificar o que me deste
sem saberes

sexta-feira, 28 de março de 2008

Recomendável?

Não sou de recomendações
Nem serei, tão pouco, do tipo recomendável
exceptuando o aparentemente
onde sei ser, de facto, digna da dita carta
dita de recomendação
Excluindo o aparente
nada do interiormente
me é próprio para consumo,
nem sequer dentro de padrões de qualidade
Meus índices de contaminação
são elevados demais para mentes saudáveis
Mandarei gentilmente à merda
todos os que me queiram pagar o jantar
ou as nobres almas que se revejam em mim,
na minha interessante forma
Mais facilmente me deixarei seduzir por ti, meu querido,
que me dizes da forma mais eloquente
que me queres foder repetidamente
Genuíno o teu conteúdo
com as vontades do corpo não se brinca
Vamos nós brincar com nossos corpos
Tu entendes minha falta de paciência
te impacientando comigo
Brindaremos nos lençóis suados
Depois de tamanho entendimento
seremos dignos de celebração
Aqui sim focalizada a dignidade humana,
desmentidos os pudores
arrumados em gavetas jeitos e jeitinhos
Enfim minha divagação nocturna se conclui
Bebo mais um copo
Fecho o livro
Durmo
Preciso de descansar
Amanhã, Sr. Doutor, serei incólume criatura
Absolutamente digna de recomendarices
Convencidos?

segunda-feira, 24 de março de 2008

Cativeiro

Se vierem fadas embalar o meu sono,
enquanto tu choras minha ausência,
pede-lhes docemente que te transformem as lágrimas em cristais
e as levem em penas até mim
Choras baixinho meu amor,
teu pranto rouba-te a força
Aperta a almofada que é minha,
prometo que te inundo com o meu cheiro
que não é mais meu: é desse pano
Tua mão que tantas vezes me sentiu
contorna agora invisíveis espaços sobre esse lençol
Se a tua mão moldasse as partículas desse ar
era meu perfil feito em volume que se mostraria
Sabes em tacto meus poros
Teus densos olhos
em negro brilhante sempre me prenderam
Voluntário o meu precioso cativeiro
Tu
Só tu
Se eu pudesse juntar como junto estas letras…
Se eu soubesse a tua magia

Queria ter forma de vento
e em correntes correr teus dedos
em turbilhões desalinhar teu cabelo
em leve vapor evaporar teu choro
Queria ser tua só mais uma vez
só para desejar ser tua outra vez

domingo, 23 de março de 2008

Assalto

Sou dono do mundo
Quanto custa o mundo?
Que me dariam para vos dar o mundo de volta?
Sou negociante de promessas
Trafico gente que não se sabe

Aquela alma é minha e eu sou daqueles pés
Jogo a feijões a vossa cobiça
Pedincho pelos vossos neurónios
enquanto de vós espremo a humanidade
Tragam-me um prato cheio de ideias,
tenho fome depois da gula
Cobrem-me as horas de preguiça,
sabem que preço cobrar?

Estratifico diálogos
Em oblíquos movimentos faço planos distintos
cruzo vozes e cultivo histórias
Desdobro cartas perfumadas que têm sabor de beijos
e em passos de dança engano-vos os desejos

Venham
Vamos sentarmo-nos em círculos
talvez consigamos um acordo sobre sombras

sábado, 22 de março de 2008

Porta

Saída de emergência
A linha fina que me salva
Liga-me
De todo este barulho
Faz-me ouvir o teu toque
Toca-me
Faz-me ouvir-te
Liga-me
Cola os meus pedaços, tu conheces as peças

Se eu for por ali
estarei a mexer os meus pés?
Se eu não for
estarei em viagens mentais?
Na ponta deste lápis
vejo o carvão que se gasta
Desperdiçado nas minhas palavras sem sentido

Está aqui a saída de emergência
Porta de entrada lá para fora
De fora, ao avesso, do fim
é assim que me vejo melhor
Mais fácil descansar
Até já

quarta-feira, 5 de março de 2008

Espionagem

Em vertigem
pequenas estrelas cadentes caem
picam e salpicam tuas pernas
que brilham, mostrando teus traços
Mesmo que te escondas,
que atrás dessas paredes grossas
te cubras em lençóis de linho,
minhas estrelas espiãs
saberão onde te encontrar
Vem, tesouro meu
não ouves a lua que te chama?
Abre a janela à madrugada
porque eu pedi à noite estrelada de verão
que viesse dar-te um beijo sobre a neve caída deste Dezembro
Este manto de espuma que se derrete só de te ver passar

terça-feira, 4 de março de 2008

noite de amor

Deitou-se um grilo comigo
Embriagado pelos meus cabelos
cantou toda a noite em desafinado coro
Cantava seu tamanho amor,
um grilo tão pequeno
Por fim,
exausto,
deixou-se dormir
Encostei-o a mim,
suas antenas tocando no meu queixo
Fechei meus olhos também

Nunca acordei daquela noite
que nunca acabou…
Jamais acabam as noites de amor

Floresta

Flores nadam em chocolate
sorriem, riem alto
Oiço-as em vozinhas estridentes
Pedras flutuam
e as folhas não estão nas árvores
O sol é vermelho
(passa o dia em beijos longos contigo)
Enquanto tu, transparente,
deixas ver teu coração que é líquido
Flutuas para lá,
tuas costas voltadas para mim
Vais e eu sei que voltas
Sorrio-te, como as flores
Na tua transparência vejo-te sorrir, de costas
Espero-te aqui,
enquanto o algodão dos lagos chove para o céu
Sei que voltas antes das nuvens carregadas nos fazerem o leito
É hora de dormir