sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Tapete

São como triângulos de gelo
os segredos traídos
nas cortinas da tua janela
No chão,
onde me deito,
funde-se a sombra das vontades que me fogem
enquanto eu,
quieta,
vou fechando os olhos ao ritmo dos teus planos
Se anoitecer assim
e as cortinas forem só lembranças
promete-me
que este segredo não será traído sempre que for recordado
Tremem-me os dentes na ausência de frio
É sempre o calor da nudez que me assusta

São de tantos sabores os teus dias
E eu
dilato
em esferas que me comprimem
Não posso querer ficar

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Inverso

Naquele dia acordei. Acordo todos os dias, é um facto. Acordei naquele também. Nem sequer foi um acordar diferente dos outros mas recordo-o. O quarto que não era meu estava escuro, frio e calado. Tão calado que todos os sons se empurravam contra as paredes e delas saltavam como cascatas de ecos impossíveis de aguentar.

O som das pálpebras, das minhas, que pesadas se abriam e fechavam, era como martelos em chapas metálicas: batidas agudas, lentas, latejantes. Por causa disso quis manter os meus olhos abertos o máximo de tempo que conseguisse. Começaram a arder, primeiro pouco, nos cantos dos olhos onde nascem lágrimas, depois um ardor alastrado, a falta de humidade por toda a superfície ocular. Pensei que iam paralisar os meus olhos, fixados numa parcela de parede que mal distinguia pelo escuro do quarto. Seria um trágico fim para a minha visão, assim gasta num pedaço de parede impossível de reconhecer, com tão pouca luz, tão poucos detalhes, pouco para recordar, para decorar, nos instantes últimos dos meus olhos. Fechei-os. Outra vez os martelos, as chapas. Mais do que som agora. A mais o movimento das pálpebras recolhendo o redondo dos olhos secos e ásperos, resistindo ao movimento aqueles pedaços de pele raspando-me a imagem da parede irregular.

Estranho como o corpo do meu lado parecia não fazer qualquer som e eu sentindo-lhe o movimento pelos lençóis que subiam e desciam ao ritmo do seu sono pesado. Virei-me o mais devagar que pude (ainda assim naquele silêncio cortante os pequenos estalidos das molas do colchão pareciam dezenas de armas a disparar, algumas em simultâneo; balas em trajectória definida, cortando o ar que não se corta). Durante o processo rotativo foi-se aproximando o cheiro daquele novelo de cabelo suspenso entre ombros nús e uma almofada gorda. Foi bom sentir aquele cheiro doce a crescer nas minhas narinas, ocupando o cheiro de corpos repousados que os quartos de dormir sempre têm.

Queria mais luz para ver melhor as ondas irregulares daqueles fios de cabelo: a pequena claridade invasora, infiltrada pelos cantinhos dos buracos dos estores, era pouca. Restou-me pegar em fragmentos e com eles construir o resto da imagem na minha mente.

O silêncio foi-se calando, menos perturbador, ou eu mais fundido nele. Como uma fábrica em início de laboração os meus neurónios iam começando a despertar e os meus dedos dos pés começando a agitar-se. A mudez do mundo começava a revelar-se enquanto adormecia o meu mundo de sonho, entre lençóis e fios metálicos do cabelo dela. As minhas mãos reais procuraram-lhe a perna quente, tocaram-lhe procurando um sítio onde encaixar, pararam abertas sobre o umbigo, onde lhe sentiam o respirar adormecido nos movimentos abdominais.

Gostaria de me lembrar que aconteceu depois mas já só me encontro no barulho do trinco da porta a fechar, do meu suspiro tranquilo, das mãos nos bolsos depois apertados todos os botões do casaco, do vento frio que aquele mentiroso sol de inverno oferecia. Não me consigo lembrar se falamos. Sei que falei, não sei se com ela, não sei se só comigo. Naquele acordar nada acordou de novo em mim mas aqueles cabelos metálicos, que não sei se cheguei a amar, acordam em mim todas as manhãs de sol de inverno.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

H oje

Preciso de ti
Digo-o, escrevo, sublinho
Transborda esta necessidade impossível de reprimir
Entraste-me na mente
percorres-me de dentro para fora
Precisar de ti é uma dádiva,
um altar de sacrifícios que se dão em flor
Infindável a vontade
que te entrego
Eu, que só conhecia fins de tudo
que só esperava fins de tudo
Que agora te espero, a ti
inquieta
em qualquer recanto dos dias
Acordo
e quando te vejo ao meu lado
sei que acordo,
só agora desperto
só agora sei
Tu

quinta-feira, 19 de junho de 2008

castigos talvez

Escolhi hoje para pôr um ponto
a lápis, porque amanhã posso querer apagar
não gosto de ter predefinições em matérias que não conheço
ou que são voláteis como o tempo
No calor do sol que hoje se fez
senti o tecido da roupa colado ao tecido da pele
a mesma orgânica e a falta de vida

Escolhi este dia

É mundana qualquer procura de identidade,
tentativa de afirmação
ou assumida negação
Fico convictamente sem convicção,
discuto sem qualquer tipo de coerência
e evito as questões que não me apetece responder
Prefiro as minhas conversas de botões,
até me entendo bem comigo,
e não me aborrece que me olhem de lado
Os ângulos de visão são sempre relativos

Seria bom se desligasse a minha mente com um comando
coordenando assertivamente só os movimentos irreflectidos
É cansativo ser eu,
ser vários eus
e algumas vezes nem querer nenhum
É por isso que alguns deles ficam sempre inacabados
será por isso que me sinto incompleta?

quarta-feira, 18 de junho de 2008

In conformismo

Lá fora é a vontade deles que impera. Aqui dentro fecho-me, ponho trancas na porta da vida, não quero nada que venha do tudo de nada deles. Prefiro a minha mortal dormência, o estado latente, o estado pendente, o meu estado estático ou estridente. Escolho a minha solidão aparente, enganando-os. São tão fáceis de iludir: um sim é sempre um sim por mais que os meus olhos reflictam, quase em absoluta falta de controlo, a minha vontade de vos esfregar uma bofetada. Ou várias. Porque em assumida convicção quero que se fodam nos vossos pragmatismos e lógicas das coisas. Prefiro a batata no lugar da vossa. Não há moral nenhuma nos passos que dão. Não há dignidade na ausência de escolha, de vontade. Partilho de uma estranha forma de existir que não é só minha, há mais loucos por aí. Não há nada de misterioso na humanidade: a mim fascinam-me os impulsos animais e as necessidades básicas. O absurdo e a decadência humana, a opção pelo ridículo, pelo descontrolo, pelo extremo. É preciso ter a cara no lodo para saber a que sabe por isso não me venham com as histórias inventadas daquilo de que nunca sequer estiverem perto. É na física das coisas que estamos todos, engolidos em destroços que as mentes invadidas por códigos fingem não ver. Há mentiras cuspidas em todas as pedras da calçada, nos saltos dos sapatos que não servem para nada e nelas se afundam. Onde está o pragmatismo da formalidade? Onde estão os brilhantes na luta cega de todos os dias? Não os vejo a lavar as escadas que sobem.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Caixas

Numa tela branca
construída de dedos
sugam-se linhas dispersas absorvidas de vácuo
Sem ninguém entender
ocupam-se enlaçadas cores
Os dedos salpicam nas mãos que tremem
É o que não se diz que se desenha
está ali
tão nítido na ausência de significados
Porque a verdade é feita de pequenos nadas
na simplicidade da água que escorre em janelas frias
Desconstruída a história ainda por contar,
nos uivos das distâncias
nas cordas dos dias
Tudo muda,
metamorfose nunca acabada
Tudo cessa,
voltando depois do avesso
A simetria pode ser irregular
quando adormecemos ao sabor do vento
e se encaixam desejos

sábado, 14 de junho de 2008

Madrugada

Se eu semear nos teus poros os segredos de mim
Se todos os dias cuidar deles,
todos os dias cuidar de ti,
deixas-me todos os dias ser feita das raízes que te ocupam?
Conquistar-te pela pele,
em pequenas doses
pequenos novelos de ar
As somas, as sobras, as solas
todas
as que ninguém quer
Delas, todas, tudo tiro
Tudo dou
Não vês no beijo sem luz que nos faz brilhar?
Vês
(eu sei)
Sussurro

segunda-feira, 5 de maio de 2008

um e um

É nas dúvidas que se consome meu combustível
Vêm em pés de lã
De mansinho,
na calada de uma madrugada de nevoeiro
Depois alojam-se,
parasitas
Sugam meu ar comburente, moem meu cérebro
Lá, no centro das minhas convicções
Porque um nunca é um
são sempre dois
Esta e aquela
Qual é que escolho?
Se escolho esta porta
a outra fica sempre por abrir
Porque não me deste a chave antes?
Agora é tarde,
eu já entrei nesta porta
Não sei para onde vou mas conheço este caminho
já por aqui andei antes
Antes de tudo ou antes de nada
Se cá voltei foi tudo ou nada?
Já me cansam os pés,
vou parar aqui

Conversas d'olhos

Um café, um bar, uma mesa, quatro cadeiras. Só ocupamos duas. As outras ficam, nem nuas nem tristes, olhando-nos. Querem de nós, querem que façamos o lugar de quatro.

“Gosto de ti porque tens conteúdo.”

Recordo quando o disseste. Recordo os teus olhos quando o disseste. Recordo o trago que deste depois. O teu copo molhado de fora mostrando o frio de dentro. De dentro do copo. Talvez tenhas feito a vontade às cadeiras (talvez, se com vida se pintassem, tivessem esboçado um suspiro palpitante e aguardado o desenrolar).

Não recordo se ficaste vermelho, estava escuro. Recordo a música, recordo o meu embaraço. Sorri, não disse nada, projectei os olhos lá longe, numa qualquer prateleira. Fiquei embaraçada por ti, imaginando o teu embaraço ao dizê-lo. Tento decifrar que te disse a ti este momento. Imagino-te combatendo hostes de barreiras, de distâncias, de contenções, de portas e mais portas e mais chaves. Tudo pelo meu conteúdo.

Imagino, depois de toda esta luta, a sede que a evidencia no copo que levaste à boca, que te tenhas sentido entre a esperança e o desalento. Esperançoso que eu tivesse entendido tua luta, tua conquista, o quanto te custara dizer aquelas palavras todas e juntas. O desalento, sim. Desalento de saberes que seria pouco. Que a tua batalha, tuas espadas, teus monstros são pouco. Que eu provavelmente quereria mais – mas ninguém consegue duas batalhas seguidas.

O curioso de tudo eram os teus olhos. Não pretendo banalizar, já vi muitos olhos inexpressivos. Olhos são só olhos. Mas os teus às vezes queriam saltar, falar por ti. Quase tinham a ousadia que te faltava e depois logo fugiam. Nunca os decifrei bem mas foi por eles que te quis ver mais vezes. A minha esperança era que eles falassem mais que tu e que tu, depois de denunciado por eles, falasses por ti (em modo mais simples que conversa de olhos). Não sei quantas vezes insisti, sei que um dia entendi que entendia só partes, que eram poucas. Despedi-me deles nesse dia. Eles entenderam, despediram-se de mim, ao longe, sem muito alarido: porque eles sabiam mas tu ainda não. Era uma despedida prolongada.

Guarda-me. Um dia quando tu fores os teus olhos relembra-me. Abre esta porta, sobe as escadas, toca. Também tenho um copo para te matar a sede.

domingo, 4 de maio de 2008

No fim

Tudo tão confuso
e às vezes não sei se sei caminhar
Tudo distorcido quando o horizonte devia ser plano
Tudo igual ou diferente quando deveria ser só diferente ou igual
Só quero um sorriso
Dás-me?
Não preciso de tudo
As tuas mãos agarram as minhas, não é isto quase tudo?
Dá-me um sorriso, depois consigo roubar-te outro
Se eu fechar os meus olhos,
se eu os fechar,
mostras-me o teu mundo?
Caminhas comigo? Olhas para mim? Olhas por mim?
Pede-me um sorriso,
são tantos os que tenho para te dar.

Burros

Não gosto de responder a perguntas
O que me pedes
não dou
O que procuravas
já se foi embora
Não estou aqui para agrados nem caprichos,
já me bastam os meus
Com facilidade te defino os meus objectivos,
Sobressai sempre o que nos separa
E, como se do destino do mundo se tratasse,
perdemos horas discutindo metas,
mas só as metas que nos dividem
É indiferente que sejam a minoria
O importante é o consenso unitário,
não o equilíbrio de forças
Forçamo-nos a caminhos que não queremos
Não sei se seremos burros teimosos
ou só burros

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Sete anões

Gosto das flores e da primavera mas elas dão-me alergia.
Como tanto por aí: eu gosto mas meu corpo rejeita.
Não me deixo intimidar.
Haverá sempre um lenço de papel por perto.
Bandeira branca.
Por isso vou, espirrando mas vou.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Conchas

Saíste aquela porta azedo comigo. “Ninguém pode não saber nada”, dizias. Queria dar-te razão, sentar-me ao teu lado e partilhar contigo, mesmo que apenas uma partilha de discórdias. Tu só não entendes a falta de partilha. Queria-o, verdade. Como poderei dizer-te que o queria de verdade? Acho que esgotei os meus cartuxos de oportunidades contigo. Tu és tão sólido, tão tu. Como? Mais ainda: como consegues olhar-me e ter compaixão? Porque és sempre tu que voltas e não me deixas ir. Já sabes que me deixando eu me deixava ficar. Por aqui. Por aí. Por dentro e por fora. Sou demasiado enfadonha para suscitar sequer compaixão. Nem sei se a tua compaixão é boa, se a quero, se uma dádiva ou uma esmola. Sei que nunca estou no caminho certo, teimo em não estar. Mais não é do que um capricho. Se não fossem os meus caprichos eu não saberia de que matéria sou feita. Tu sabes mais de mim. Muito mais. É por isso que te incomoda, por isso que te impacientas: tens a solução, sabes aplicá-la, sabes-me bem. Só não sabes como não sei. Não entendes como se pode querer partilhar, ter esse desejo, e não o fazer. Não o faço, não o consigo, queria explicar-te e não sou capaz. É uma questão de conchas. Posso pedir-te perdão. Um perdão inconvicto, perdão de consciência pesada (será?) de um qualquer pedaço que terei em dívida. Qualquer coisa indefinida. O perdão fica sempre bem. Honesto, incoerente, concreto ou abstracto. É sempre um perdão. Não o peço, prefiro carregar a minha consciência. Nem sei se me perdoarias se somente deixarias arrastar os dias, quase sem saída. Um não perdão e uma guerra em troca, bem sabes. A guerra de mim, evidenciando-se minha essência amarela, ou pior (?) minha falta dela. Isso é o que queres ver sem ver, é ali que está a tua fronteira, aquela que te separa de mim sempre que chegas mais perto. Se passas és tu na minha pele.
A derrota, a minha na minha falta de solução, a tua na tua minha insolúvel solução.

Queria-o de verdade.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Sabes?

Tenho medo quando está escuro e não tenho luz
Sabes onde posso comprar fósforos e fazer uma fogueira?

ossos

Estou partida
onde não existem ossos nem carne
Estou partida de mim, partida de nada
Partida só
Se eu reconhecesse a fragilidade das ligações
talvez me cuidasse melhor
Se eu me definisse
talvez me soubesse melhor
Protege-me daquilo que eu quero
Protege-me

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Pão ralado

O mundo anda louco, concluo. Talvez devesse fazer circular um aviso. Talvez seja meu dever partilhar a minha mais que vulgar ilação com os meus pares. E com os ímpares, que sempre me provocou algum nervoso miudinho isso de desprezar os ímpares. Seja 1 ou sejam 3, qualquer outro número primo ou mesmo sem nenhum tipo de parentesco.

Acho que os teus miolos fritaram. Eu disse-te, na minha esborratada tentativa de sensatez: “lume brando durante tempo demais também fode o refogado”. Olhaste-me. Depois disseste-me “E isso sabes das horas que passas ao fogão?”. “Sei das horas que passo contigo”. “Mal passaste mais que algumas horas seguidas comigo”. “Sei das horas que não passo contigo”. “Então não sabes”. “Sei”. E na conversa que não se seguiu entendi que discordavas, entendi que eu até concordava contigo na discordância da minha afirmação. Talvez não fossem teus os miolos. Talvez não fossem de ninguém porque talvez fossem só os meus. Tantas vezes eu estou ao avesso de mim que me parece difícil reconhecer o óbvio, identificar no espelho pálpebras que são de mim. Ponderei na libertação desta nossa conversa não tida, afinal se é nossa deveria tê-la partilhado contigo. Fiquei calada. Porquê? Não sei. Posso tentar inventar uma justificação mas eu detesto justificar tudo, precisamente porque o tento fazer vezes demais. Já, por outro lado, muito me agrada tentar inventar. Entre a invenção e a justificativa fico-me só em dúvidas lançadas. Acho que vou tentar panar um pouco mais os meus miolos. Se é para fritar que seja com um pãozinho ralado, só para lhe dar uma graça.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Se

Se eu soubesse pedia
Se eu conseguisse não ia
Lá, onde já sei que me perco
Por ali, que já sei que não gosto
Fico com o sabor preso debaixo da língua
Liberta-se de mansinho
E eu não sei cuspir no chão
Engulo
Engulo o travo feio
Seguro a vontade de asfixiar as papilas gustativas
só porque elas são anfíbias
Tudo muda de forma,
os formatos encontram-se para se verem
e gestos são formas desenhadas em nada
Para lá do que tu vês
para lá, onde não vês
é lá que está
Nenhuma presunção, não imagines
O que não vês eu também não vejo
Limitam-me os olhos e a visão
As cores sobram num paraíso que se desenha a preto e branco
É tudo tão simples
tão simples
Se pedisse um desejo,
daqueles que perdi quando deixei de acreditar,
pedia-te a ti

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Mostarda

Minha vida sentimental é como um pequeno frasco de mostarda,
Amarela
Pálida
Aquele ligeiro trago entre o picante e o amargo
Às vezes ponteada de pigmentos,
Outras só de consistência mole e homogénea
Enfim, como qualquer mostarda,
enjoativa

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Plantas

E se as vespas passarem a fazer mel?
E se eles, no inferno, chorarem nossa ausência?
Imagino-te a invocar o perdão que nem sequer sentes
Quase te vejo andando de costas,
olhos no chão
Assim podes dizer que cais
justificação lógica e absoluta
Fico sem força de repetir
Fico-me
Sento-me
Minhas costas doridas têm muitos mais anos que eu
curvadas por dentro,
curvadas nas sombras
Meus pés esfolados,
eu na cadeira,
a mão no queixo
e fico a ver-te sem que ali estejas
Abre-se um pano de palco invisível,
luzes ofuscantes projectadas pela minha testa
e ali estás tu naquele palco negro
Aqui, nesta cadeira velha,
rangendo, rachada, rija
estou eu
num cenário que são só de páginas envelhecidas
Que fizeste contigo?
Lês nos meus olhos o deserto que agora há?
Perdi todas as lágrima,
espremi lençóis molhados para não as esgotar,
implorei que não secassem
agora não tenho mais
Resta-me isto
ver-te daqui,
rodeada de distâncias tão fáceis de percorrer
e sentir-me só(mente)
É este cansaço de vozes frias,
azedas de tempo apagado que não volta
Esta mágoa em forma de repulsa
esta inércia dos meus dedos
Porque é que te negas?
Porque é que eu te aceito?
Onde está a audácia de te contrariar?
Para estar sendo precisei deixar-te,
bem sei que nunca me chamaste
Eu
Deixei-te
E agora, agora sou sempre assim
rodeada de distâncias
não quero nada perto de mim
não quero isto
não sei que quero

agitar, usar e deitar fora

tudo tem a sua utilidade e oportunidade
(e eu já tive a minha)

Depois

Sou casca de laranja deitada fora
Tanto importa que fique ou que vá
Sou casca,
depois de mastigados meus gomos,
cortados a faca a dente a fome
depois de cuspidos meus caroços,
rejeitados, sem sabor, sem nutrição
- desprezada a fonte de tudo.
Depois
pouco interessa que destino me dão
E eu tinha cor,
eu guardava meus gomos preciosos
eu os mantinha aqui plenos de água para aliviar tua sede
Sou casca,
Resta-me esperar pelos vermes que me aceitam no chão
neste chão
Resta-me fechar os olhos e não sentir
um dia talvez volte a estar naquele ramo, naquela árvore,
um dia talvez seja gomo caroço sumo
um dia talvez minha casca renasça, tenha valor.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Bem-te-quero

Quando o meu comboio passar
não te assustes
não tenhas medo
Ele passa, eu fico
Não lhe atires pedras
Ele passa, não pára
É só comboio de recolha

Se eu estiver distraída quando ele voltar
fecha tu as cancelas por mim
(tenho de me proteger)
Mas não perguntes
Ele faz tanto ruído quando passa
silencia-me
não consigo responder, não sei se consigo ouvir

Ficas do meu lado?
Reconheces os meus olhos tapados de cabelos?
Ajudas-me a remendar carris depois?

Podemos plantar malmequeres do lado de lá
Talvez um dia o comboio pare
E, cansado, por fim descanse no cais terminal
O seu fim não sou eu
Talvez os malmequeres cresçam tanto que as fendas dos carris se deixem de ver

Bem-te-quero

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Incompleto

Gosto de coisas, algumas que toco, outras que cheiro.
Gosto das coisas que guardo, têm segredos que ninguém vê,
marcas, impressões digitais, transparências que lhes pesam
Gosto de gostar de coisas pequenas
círculos, esferas, a ausência de arestas,
não há um princípio e não lhes posso pedir um fim
Descubro que nem tudo tem regras nem excepções
O centro é só um ponto
Gosto dos retalhos incompletos, de peças, de partes
Gosto de procurar, de me enganar, de me corrigir,
de pedir desculpa, sentir o desejo do perdão
Gosto das coisas simples,
da banalidade das minhas pernas sobre as tuas enquanto descansam meus pés doridos
Gosto de gravar instantes com um cheiro ou um som, uma porta ou um segredo
Descubro que às vezes portas são segredos

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Da próxima vez

Aproveito que estou só
Agora posso conversar comigo.
Encosto-me, bebo o chá
Respiro o cheiro do caramelo
Gosto de ser tua amiga
Gosto quando me fazes rir e me beijas a seguir
Andei de mãos dadas contigo
Da próxima vez vou querer andar às cavalitas

segunda-feira, 7 de abril de 2008

L

Deitei-me com a lua
Fiz amor com ela
Com o seu sopro frio
um pó estrelar fez borbulhar as minhas veias
minha circulação tonta, embriagada
fez meus glóbulos brancos dançar tangos com os vermelhos
Mais sentidos sentindo,
minha lua sabe-me tão bem
sabe-me a prata liquida
sabe-me de cor
E os cheiros, mil vapores e dedinhos de odores
minha lua não cheira só a satélites
antes me incendeia em quentes ventos,
desertos de canela em ninhos de pássaros
Minha lua é como um quadro
uma tela que eu pinto com formas e farpas e figos
Como desse quadro,
minha lua alimenta-me da água do rio
Só mais um pouco,
estou quase na outra margem

domingo, 6 de abril de 2008

(entrelinhas)

Não te controlo os pensamentos, mas gosto de me deitar neles

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Pés

Sabes quantas horas perdi sem dormir? Sabes quantas frases ingénuas implodi na minha garganta? Perco tempo demais em conversas da treta. Gostava de não ter mais de esquecer. Não reconheço a liberdade, sinto-me todos os dias numa jaula em circuito fechado. O meu erro sou eu.
Na minha aparente estabilidade, abrem fendas de estrutura. Constato que meus cálculos estavam errados. Não sou nada disto. Não sei que sou fora disto. E é isto que me preocupa.
É condição humana a recriação e a metamorfose? Se eu me sinto lagarta como posso ganhar asas para saltar daqui? Se eu gosto do meu casulo, como posso querer deixá-lo?
Inventem-me uma rotina feliz ou levem-me daqui para fora. Para lado algum, pouco importa. De qualquer forma olho atrás e não quero, olho para o fundo e não sei o horizonte.
Já nem sei se tenho pegadas, meus sapatos caem-me dos pés. Podem os pés estar em processo de regressão? Acho que os meus estão mais pequenos hoje do que estavam ontem. Será por isso que perco equilíbrio?

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Chave

Existo, sou (factualmente)
Faço, sinto, sopro (aleatoriamente)

Como existes tu (neste momento)?

Recorda

Pausa

Está calor lá fora e é só Abril
Tiro os sapatos que ninguém vê debaixo desta mesa,
sento-me do meu jeito
(uma perna sobre a outra sobre a cadeira)
Vejo as várias janelas abertas no meu computador
e são as janelas fechadas do corredor que eu queria abrir
Impaciento-me
quero cheirar as flores da primavera e fico aqui estagnada

terça-feira, 1 de abril de 2008

No sofá

- Já leste Nietzsche?
- Não mas já vi umas tretas
- Eu procurei mas não entendi a ponta de um cu… o tipo era filósofo, qualquer coisa de não acreditar em moral…
- Ponta de um cu…? Não era suposto ser “ponta de um corno” ou só “um cu”? O cu é redondo… não tem ponta
- Se for um cu Niilista…

Jantar no Inferno

Dominas-me
A tua génese contraria todos os meus valores
todos os meus pudores
Fazes num estalar de dedos
com que salive só de imaginar o prato
Na ponta da língua
libertas todo o veneno que eu bebo
Agitas-me, abanas-me, desorientas-me
sou eu sem ser dona de mim
Tua voz até num sussurro faz vibrar meus tímpanos
fazendo vibrar meus neurónios
que vibram em mim
espalhando, como óleo sobre o meu corpo,
esses químicos que me impelem a física
reacção em cadeia
determinado este estado vibratório
terminado em tuas mãos
Tu que és prisioneiro em mim
eu que sou tua presa
Come-me,
lambe os dedos
deixa suja a tua boca
Bebe-me,
leva o copo à boca
suja a toalha de vinho
Sente-me escorrendo
meu estado líquido
tem forma feita para tu sentires
Sacia-te
Esgota a fome e a sede
tens tudo aqui
Não me esgoto eu em ti
O fim é sempre só mais um princípio

segunda-feira, 31 de março de 2008

Diálogo

Disseste-me que o mundo era azedo,
que teria muitos estilhaços ainda para sentir ,
que o inferno é concreto
Em boa vontade dizias,
só pretendias alertar-me,
não desanimar-me.
Pois com a minha boa vontade
te escrevo, te desmoralizo, te desanimo
em simples murmúrio te aviso:
a vida é bela

Números

Em números perderam-se minutos
que os números não souberam contar
Inúmeram e classificam com graus de detalhe
estratificando o que só em bruto tem valor
Perdem em divisões
o que somado depois já não se une
ábaco de bolso que ninguém entende
Em números se fundem
Números falam, traduzem, simplificam
números são datas
são dias
são kilometros que separam
são dedos que se encontram
são notas musicais
são notas de rodapé
Em contas, conta-se um conto
que ela, só ela, ouve
encantada

domingo, 30 de março de 2008

Demolição

Demolição
Explosão
Energia demais apenas perdida
Fluxos que não entendo
Coisas vão
coisas vêm
E enquanto dizia que nada fica
sinto agora tudo isto ficando,
agarrado a mim em falso abraço,
sem conforto
Peso enorme carregado
Sombra minha
escura, pesada,
um pesadelo que me acorda na madrugada
Suor de medo
alagadas as horas de silêncio
roubado o tempo que precisava
para mim
Todo perdido nisto,
neste engano de pecados insanos
nos ecos, sempre os mesmos
Na minha tranquila estadia
está o mundo em guerra comigo
Quem parte?
Partida em cacos parto eu…
partiria se soubesse como sair daqui
se soubesse o norte ou o sul
Não há bússola para mim
Jamais serei bússola de alguém

Em perdidos temas
passo da cadeira para a cama
aguardam-me os pesadelos de madrugada
Talvez um dia deixe de dormir
Deitando-me sem sono
Deitando-me fora
Renovadas vozes
Esquecidas sombras fechadas em baús
Cinzas
Pó do que foi

Nada me toca agora
Nada consigo que me toque
Meu corpo repelindo qualquer toque
Minha alma
(se ainda a conheço)
um campo de batalha
Sem espaço para nada
Em cercos todas as miras
apontando na mesma direcção
Tiros certeiros
Mato tudo
Não acredito
Prefiro ser só, estar só
Não tenho espaço para dúvidas
já só não acredito
Este o presente que me deste

sábado, 29 de março de 2008

Lugar

Sento-me à mesa
assumo o assunto
vamos debater as coincidências
Vidas que se cruzam
aparentemente desconexas
evidentemente empurradas contra si
Tinha de ser este dia e esta hora
esta conversa
este copo
este lugar
aquela prateleira
aquele chão
São só detalhes inconscientes
que à minha consciência transmitem sinais
Não sei que virá daqui
tão pouco me importa
Não tenho fita métrica
sequer sistemas de medição,
para medir a leveza destas coincidências
que não o são
para quantificar o que me deste
sem saberes

sexta-feira, 28 de março de 2008

Recomendável?

Não sou de recomendações
Nem serei, tão pouco, do tipo recomendável
exceptuando o aparentemente
onde sei ser, de facto, digna da dita carta
dita de recomendação
Excluindo o aparente
nada do interiormente
me é próprio para consumo,
nem sequer dentro de padrões de qualidade
Meus índices de contaminação
são elevados demais para mentes saudáveis
Mandarei gentilmente à merda
todos os que me queiram pagar o jantar
ou as nobres almas que se revejam em mim,
na minha interessante forma
Mais facilmente me deixarei seduzir por ti, meu querido,
que me dizes da forma mais eloquente
que me queres foder repetidamente
Genuíno o teu conteúdo
com as vontades do corpo não se brinca
Vamos nós brincar com nossos corpos
Tu entendes minha falta de paciência
te impacientando comigo
Brindaremos nos lençóis suados
Depois de tamanho entendimento
seremos dignos de celebração
Aqui sim focalizada a dignidade humana,
desmentidos os pudores
arrumados em gavetas jeitos e jeitinhos
Enfim minha divagação nocturna se conclui
Bebo mais um copo
Fecho o livro
Durmo
Preciso de descansar
Amanhã, Sr. Doutor, serei incólume criatura
Absolutamente digna de recomendarices
Convencidos?

segunda-feira, 24 de março de 2008

Cativeiro

Se vierem fadas embalar o meu sono,
enquanto tu choras minha ausência,
pede-lhes docemente que te transformem as lágrimas em cristais
e as levem em penas até mim
Choras baixinho meu amor,
teu pranto rouba-te a força
Aperta a almofada que é minha,
prometo que te inundo com o meu cheiro
que não é mais meu: é desse pano
Tua mão que tantas vezes me sentiu
contorna agora invisíveis espaços sobre esse lençol
Se a tua mão moldasse as partículas desse ar
era meu perfil feito em volume que se mostraria
Sabes em tacto meus poros
Teus densos olhos
em negro brilhante sempre me prenderam
Voluntário o meu precioso cativeiro
Tu
Só tu
Se eu pudesse juntar como junto estas letras…
Se eu soubesse a tua magia

Queria ter forma de vento
e em correntes correr teus dedos
em turbilhões desalinhar teu cabelo
em leve vapor evaporar teu choro
Queria ser tua só mais uma vez
só para desejar ser tua outra vez

domingo, 23 de março de 2008

Assalto

Sou dono do mundo
Quanto custa o mundo?
Que me dariam para vos dar o mundo de volta?
Sou negociante de promessas
Trafico gente que não se sabe

Aquela alma é minha e eu sou daqueles pés
Jogo a feijões a vossa cobiça
Pedincho pelos vossos neurónios
enquanto de vós espremo a humanidade
Tragam-me um prato cheio de ideias,
tenho fome depois da gula
Cobrem-me as horas de preguiça,
sabem que preço cobrar?

Estratifico diálogos
Em oblíquos movimentos faço planos distintos
cruzo vozes e cultivo histórias
Desdobro cartas perfumadas que têm sabor de beijos
e em passos de dança engano-vos os desejos

Venham
Vamos sentarmo-nos em círculos
talvez consigamos um acordo sobre sombras

sábado, 22 de março de 2008

Porta

Saída de emergência
A linha fina que me salva
Liga-me
De todo este barulho
Faz-me ouvir o teu toque
Toca-me
Faz-me ouvir-te
Liga-me
Cola os meus pedaços, tu conheces as peças

Se eu for por ali
estarei a mexer os meus pés?
Se eu não for
estarei em viagens mentais?
Na ponta deste lápis
vejo o carvão que se gasta
Desperdiçado nas minhas palavras sem sentido

Está aqui a saída de emergência
Porta de entrada lá para fora
De fora, ao avesso, do fim
é assim que me vejo melhor
Mais fácil descansar
Até já

quarta-feira, 5 de março de 2008

Espionagem

Em vertigem
pequenas estrelas cadentes caem
picam e salpicam tuas pernas
que brilham, mostrando teus traços
Mesmo que te escondas,
que atrás dessas paredes grossas
te cubras em lençóis de linho,
minhas estrelas espiãs
saberão onde te encontrar
Vem, tesouro meu
não ouves a lua que te chama?
Abre a janela à madrugada
porque eu pedi à noite estrelada de verão
que viesse dar-te um beijo sobre a neve caída deste Dezembro
Este manto de espuma que se derrete só de te ver passar

terça-feira, 4 de março de 2008

noite de amor

Deitou-se um grilo comigo
Embriagado pelos meus cabelos
cantou toda a noite em desafinado coro
Cantava seu tamanho amor,
um grilo tão pequeno
Por fim,
exausto,
deixou-se dormir
Encostei-o a mim,
suas antenas tocando no meu queixo
Fechei meus olhos também

Nunca acordei daquela noite
que nunca acabou…
Jamais acabam as noites de amor

Floresta

Flores nadam em chocolate
sorriem, riem alto
Oiço-as em vozinhas estridentes
Pedras flutuam
e as folhas não estão nas árvores
O sol é vermelho
(passa o dia em beijos longos contigo)
Enquanto tu, transparente,
deixas ver teu coração que é líquido
Flutuas para lá,
tuas costas voltadas para mim
Vais e eu sei que voltas
Sorrio-te, como as flores
Na tua transparência vejo-te sorrir, de costas
Espero-te aqui,
enquanto o algodão dos lagos chove para o céu
Sei que voltas antes das nuvens carregadas nos fazerem o leito
É hora de dormir

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Espera

Limpa-me a cara triste de manhã
Diz-me que passou
Diz-me que existem sonhos ainda,
que não morreu tudo de mim

Repetem-se os erros na minha mente,
reflectidas memórias

Preciso acelerar o tempo
Com ou sem razões só quero os dias marcados,
deixar de os contar

Dá-me as tuas mãos
segura-me enquanto espero o tempo
Fica ao meu lado
sussurra-me segredos enquanto se diluem memórias

Longe

Caminho estreito
Em linhas me levando ao nascer do sol
Árvore escura dando-me boas vindas
Pinga água da madrugada,
folhas nuas e limpas

Longe o horizonte
Pequenas ervas em solo sossegado
apontam-me o sítio onde vai nascer o sol
Deixo-me ali ficar
Só eu
De costas oferecidas àquele tronco
onde velho barco se encosta também
Tinta lascada
Letras sumidas
Dois remos
Duas margens
Aquele caminho feito ponte
Secreta passagem em água doce escondida
Meu destino entre barco e ponte
superfícies e névoa
vapor de água
noite fria

Estou só ali
já não sei mais lá voltar
Transporta-me a minha mente àquele chão
Ainda lembro o sol nascente
Sem respirar me deixa
Oferta de mel
tudo manchado de luz
nos cantos
nos buracos
nas pedras
entre as folhas da árvore do barco
espelhado nas margens, no leito
denunciando o translúcido caminho
sobre água deitado

Em tudo o reflexo, a absorção
a troca
Meus olhos vendo
meus olhos dando
Fico nesta margem
De sol me completando
Talvez um dia minhas pernas doridas
queiram descobrir o sol do lado de lá
Entretanto fico
aqui

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Gelo

A menina fugiu
Ingenuidade descascada,
em gomos repartida a verdade do mundo
Não há mãe
Não há pai
Não há casa nem tecto
só estás cá tu

As únicas ferramentas são a tua cabeça
e as tuas mãos
Que vais construir?
Em pregos cravados,
projecto de menina,
já quer sapatos altos
Sem saber nada
sabe que tem de saber
Não tudo
(sabes que não foste feita para tanto)
só o necessário para não olhar mais para trás
Em véus enganados os dias antigos
Em rectas a estrada que vem

Dou conta do que fizeste contigo
Estava escrito assim,
bem sei
Em fórmulas, quadrados,
tua razão dominando tua fragilidade,
tua vontade de fugir
teu desejo esquecer
Preço alto, concedido desejo
Choras baixinho
na ausência de lembranças,
dor que se repete
Tu sabes porque te esqueces

Regras demais também erram
Gelo nos olhos
Distância de ti que ninguém percorre
Intimidadores olhos
mesmo que não se vejam
Distância forçada em segredos para esconder

A menina fugiu
Há quanto tempo?
Não me lembro dela só de ti
Tua casca arrancada cedo demais
Falta de sol,
os gomos amargos
e tu querias doce
Não te canses
Culpa tua
Culpa deles
Sem culpa
Tens folhas brancas ainda
Tens tempo
Segue
Voltar atrás não adianta

Enquanto

Em quantas frases perdidas,
quantos metros,
quantos carris,
quanto pó?

Em quantos segredos,
quantas latas,
quantas folhas,
quanto ruído?

Em quantas casas vazias,
quantas paredes abertas,
quantos portões velhos?

Em quanto estás tu?

Enquanto pergunto recordo
(estás em mim)
Em quantos eus eu tiver,
enquanto sonhar sonhos contigo

A vida afinal é isto
Cheiro a doce
Olhos tímidos
(nossos)
Janelas com flores nos parapeitos
Sol que se põe ou nasce, fermento de luz
Pedidos
Promessas
Azul profundo

Profundamente me afogo em promessas que te dou
Vejo cores
É bom sorrir-te

sábado, 9 de fevereiro de 2008

confissão

Masturbação de sentimentos
Minha estimulação auto-infligida
na busca de solitário prazer mental
Invasão de mãos no corpo
envio de códigos à mente
Respiro mais fundo quanto mais penso
Deixo o amarelo dos desejos criados
espalhar-se nos meus olhos
Neles me sacio,
no murmúrio dos meus pecadores pensamentos
Amanhã procurarão a redenção,
o perdão obtido em confissão fechada
Pecadores pensamentos,
escondem-se em conversas banais
(tão aborrecidas)
Voltam à noite a casa,
bordel da minha alma,
para se perderem na luxúria de desejos proibidos
Comerem em gula,
com as mãos, dedos sujos,
todas as maçãs vermelhas que puderem
Vadios
sem hora nem data

Gatos em telhados espreitando janelas entreabertas
bigodes lambidos em preguiça
Gatos sem dono,
sem destino
Independência exibida em olhares de pupilas inchadas

Sobre o escuro da noite
a ausência de cores foca-me a atenção
Perfis, contornos
Oiço mais, cheiro mais
A preto e branco balanço passos,
ensaio a orquestra do meu respirar
Aguardo que chegues,
quero dar-te a beber dos meus pensamentos
em silencio arrependido
Em falso arrependimento
porque amanhã bebemos mais

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

em ti

Volta
Não quero que vás sem chegares a chegar
Vem
Prometo que tento
que espero
que vivo
Vem ter comigo
diz-me que estou errada
mostra-me que acasos são causas
que causas em mim um turbilhão
Volta, vem
Deixa-me olhar-te
não vás no mesmo vento que te trouxe
As tuas mãos, como são?
Quero ver o teu perfil desenhado a carvão,
com lápis de cor
Mostra-me os meus enganos,
diz-me que devo seguir-te,
estar contigo,
estar em ti
Vem

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Duas mãos

Duas mãos
Cinco dedos em cada
Teias de riscos, de marcas do tempo,
quase transparentes
só visíveis com a luz que reflectem
Cinco unhas em cada mão,
vermelhas, pintadas de sangue e fogo
pingam gotas de vida pelas minhas mãos
um rasto de eternidade
um eco infinito a cada gota que toca o chão
uma névoa de cerejas a cada gota que flutua
Sinais que me fazem parar, mecanicamente
Acho que sou feita de matérias primitivas
Cinco dedos, cinco unhas, cinco garras feitas para rasgar
A fusão da seiva da vida que me escorre com a carne liquida da minha presa
Os instintos em mim
As ordens descodificadas que pequenos compostos cá dentro provocam
Cadela com o cio
Missão foder e espalhar genes
sem escolhas, sem hesitação, sem dúvidas
Foder usando o fodido instinto
Sem voz sem olhos nos olhos
sem falsas carícias num abalo de consciências rotas
Até sem prazer,
como uma dependência,
só o aliviar da vontade impossível de reprimir,
sem prazer porque o objectivo é chegar ao fim
despejar todas as descontroladas ordens que a dominam
Sou feita de descontrolos
Sou a inquieta tesão de uma flor de primavera
Penetrada sem licença por feios insectos

Duas mãos
Sangue e fogo
Instintos

assim

não me quero martirizar por ser assim e sou forçada a ser uma mentira para viver no mundo de todos

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Dia

Em verniz brilhante gostava de escrever o teu nome
Em letras somadas
um sussurro de mim
Se um dia eu soubesse que seria assim
deixar-me-ia dormir nos dias
até este dia chegar
Não tenho muito
e tenho um pouco de nada
(ainda assim impuro e imperfeito)
Partilho-o contigo,
espero que em sementes se transforme
raios de luz, nossa, entre nuvens
minhas sementes ganhando vida
Preciso de ti,
não me custa mais dize-lo
Estranho esta dependência escolhida
mas é bom
deixo-me ficar
leva-me

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

sem título

Pudesse eu ser mais, mais teria para te dizer
Pudesse eu ter sido feita de pétalas de amor
Um jardim, uma espécie em vias de extinção
Nego, fujo, ignoro, desprezo?
Pergunto porque não sei
Acho que estou num ciclo que não tem um tempo certo

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Merda

Segura, andando, deslizando...
delicados pés em delicados sapatos
um passo mal dado
...e a merda do cão da vizinha a esborrachar-se nos meus pés
Da que cola, não larga
Paro e o inoportuno cão balofo ainda me tenta morder
Tenho de correr e parto um salto…
Sigo caminho,
na ridícula tentativa
de não deixar perceber a mole mancha castanha
e o salto do sapato do pé que tenho agora na mão
Hoje que me programava para brilhar sem qualquer erro
dou comigo assim
Arrisquei no taileur preto que já me assentou muito bem
(em tempos)
E distraída com a corrida contra o balofo
dou conta que me saltou um botão da saia
Aperto o casaco escondendo a casa do botão rebelde que fugiu de casa

Rendida ao cansaço de andar em pé-coxinho,
paro numa rua paralela,
tiro o sapato e vejo as finas meias rotas no dedo
Enquanto procuro um lenço e tento limpar aquele bagaço
passa o meu soberbo colega do piso de baixo
- bom dia (e sorri, deixando o rasto de armani)
- bom dia (e coro, rodeada do cheiro daquele cócó matinal)
Procuro mais lenços em vão,
mala de mulher está sempre cheia do que não faz falta
Entro na sapataria da esquina,
não sei se é pior o meu cheiro ou o cheiro a naftalina da velha ao balcão
Um único par de sapatos com o meu número...
colecção de 76, ortopédico, saltinho enfadonho de 2cm
verdadeiro couro... rijo que nem cornos
Naquele descontexto em que fico
sigo para o trabalho, atrasada
o patrão dirigido a mim em tom agressivo...
hesita ao ver-me chegar naquele reparo
estranha-me ao olhar para os meus pés
-onde foi arranjar isso?
vira costas e segue.

A pirosa loira da recepção fica a rir-se baixinho
Subo o elevador
Cruzo-me de novo com O do andar de baixo
Corada, embaraçada, só queria chegar depressa ao meu piso
O elevador pára,
estamos presos
O lingrinhas do andar de cima começa a guinchar baixinho,
alivia a gravata, para poder guinchar melhor
Acende-se aquela luz verde,
pronto …
eu pior do que a cheirar a merda
só a cheirar a merda e de verde,
que vai mal com a minha pele

Naquele desconforto O lá de baixo:
- Os seus outros sapatos eram mais bonitos
(e sorri, continuando a cheirar bem)
Vermelha,
mãos suadas,
sorriso estúpido na cara,
só me sai um grunhido de afirmação parecido com os do lingrinhas

- .... quer almoçar comigo hoje? (sorrindo para mim, O lá de baixo)

Afinal merda de cão tem o seu charme

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Iões

Localizo a origem precisa do que me dás
posso tocar-lhe porque é concreto
Não pretendo desiludir-te
mas existe um concreto em tudo
A física existe até na química
Poderia roubar-te essa origem,
criar um défice,
criar um balanço desfavorável
que me favorece a mim

Engenho mecanismos de troca
Recebo o teu tudo
dou-te o meu vazio para que o preenchas
Partilha de volumes,
de concentrações limite
que pressionam as paredes do meu cubo
Tenho arestas…
E gosto de coisas redondas
Exponho-me à erosão,
deixo os elementos do mundo
deteriorarem os meus cantos
Espero um dia poder rolar
ganhar aceleração a cada novo terreno percorrido

Fascina-me a orgânica das coisas
as medidas dos sentidos
o calor latente dos teus sonhos

Se partilharmos os nossos iões talvez possamos orbitar em harmonia nesses sonhos

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Céptico

E na ansiedade das minhas perguntas,
no triste engano das minhas palavras
Só emerge a fraca sorte
do céptico ser que eu sou

domingo, 13 de janeiro de 2008

Espectros

Percebi que não tenho de lutar contra o que eu sou, mesmo que o que eu sou seja um ser com uma sombra escura e pesada… as sombras e os espectros não me confortam, não me dão paz, mas são tão meus como tudo o resto que tenho E se tiver que chorar até ao fim dos meus dias, até ao fim dos dias vou deixar as lágrimas descer pela minha cara, molhar o meu pescoço… não me esquecer do que não me quero lembrar, do que já nem importa mas não me larga. Porque não me larga e não vai deixar, percebi. É meu, sou eu, está aqui do meu lado, na minha frente… sem nome sem medo sem alma… sou eu num reflexo, sou eu o reflexo

Fumo

O fumo espesso da minha chávena põe-se entre nós,
confiante
Eu, que bebo
Tu, a fotografia
teu sorriso estático
tua falta de movimento
tua mudez
Estremeço porque oiço
Fotografias também falam
Guerra escondida, secreta
Secretamente observo
Observo mesmo sem fotografias
Observo mesmo que tudo seja negro como o café que arrefece…
esqueço-me da chávena nas mãos
Queimam
as mãos
as tuas as minhas
as minhas quando tocam as tuas

Nem sei que sinto por ti
Nem sei se te procuro mais quando não te procuro
Não sei se te ignoro ou te imploro,
se te quero perto ou distante
Sei que quando estás distante estás mais perto

O teu erro sou eu
Mãe da culpa,
tua culpa que cresce em mim como um feto
Não se vê
mas muda os meus contornos,
as minhas formas,
como um feto
A mim
Mudo eu com o teu erro, a tua culpa
Esqueço, reconheço, perco, destruo
recebo, não dou
Agarro-o nas minhas mãos
à tua frente
(quero que vejas porque não vou dar-te)

Jogo em silêncio com imagens,
pigmentos sem vida
Acabarei como fumo,
entre o tempo e as memórias
num pedido
numa súplica
num resto de prato que ninguém quer
Mãe sem filho para embalar
embalada pela tua nossa culpa
Culpa de nada
Porque de nada também se pode ser culpado